Por Mário Gerson - Além do novo trabalho, o poeta e editor Gustavo Luz se prepara para os 25 anos da Queima-Bucha e a abertura do espaço para lançamentos de livros.
Das Máquinas era um livro que estava fora de mercado. Foi um dos primeiros trabalhos poéticos de Gustavo Luz e da Editora Queima-Bucha, que este ano completa 25 anos de atuação editorial.
Lançado em 1991, Das Máquinas ou As qualidades do papel em nossa vida é uma viagem lírica pelo mundo da gráfica, do papel, ou, por que não dizer, pelo mundo da experimentação poética, retratando a vida simples, banal e ao mesmo tempo lírica de um gráfico semiaposentado.
Para o professor e poeta Aécio Cândido, em crítica à primeira edição do livro, na obra "não se canta o passado idealizado nem o futuro vincado de sonhos e esperanças. A matéria de que ele se serve, para dela tirar poesia, é a labuta desinteressante e o microscópico mundo do trabalho de um velho, gordo e feio operário gráfico", destaca. E é nesse contexto de cotidiano simples, de expressões comuns - no meio gráfico até batidas - que o livro inaugura uma visão diferenciada do que acontece no mundo da gráfica e na vida de Das Máquinas, até aquele dia o velho gráfico grita sua independência e se aposenta junto com a sua arte, mas não deixa, é claro, de imprimir.
O autor de Das Máquinas teve contato com a literatura quando criança. "Eu acompanhava o meu pai, Raimundo Luz, nos trabalhos da Tipografia Expressa, onde existia a confecção de folhetos, livretos e o trabalho literário de Jaime Hipólito Dantas. Ele morava em uma casa, que tinha ligação direta com a casa de meu pai, então eu acompanhava Jaime e sua paixão pelos livros, na sua biblioteca, e via meu pai confeccionando livros. Meu pai ainda confeccionou um livreto de Jaime, um estudo sobre o crítico literário Agripino Grieco, feito todo em tipografia", diz. "Depois desse livro, passei muito tempo sem escrever. Quando adolescente, a gente começa a se apaixonar pelas meninas. Comecei a rascunhar no caderno e em pedaços de papel. Um amigo jornalista à época leu algumas poesias minhas e decidiu publicar no jornal. Para surpresa minha, muita gente gostou. Não parei mais", comenta o poeta.
Os primeiros incentivos partiram do tio, o escritor e crítico literário Jaime Hipólito Dantas. Segundo Gustavo, Jaime "obrigava todos os seus sobrinhos, que não eram poucos, a lerem". "Mas teve um acontecimento na escola que me incentivou muito. Eu estudava no Colégio Diocesano Santa Luzia, e numa aula de português de Dona Socorro, ela mandou todos os alunos escreverem uma redação. Depois que todos escreveram e lhe entregaram os textos, ela leu todos e, ao final da aula, pediu silêncio para ler a melhor redação da classe. Sem dizer o autor, ela leu o texto, e quando começou, sentado na minha cadeira, fiquei vermelho, ao perceber que se tratava do meu trabalho. O elogio e a nota 10 como a melhor redação da classe me fez reunir tudo que eu tinha escrito, creio que tinha entre 9 e 10 anos. Foi o primeiro livro na Tipografia Expressa, com o título "Minhas Poesias". Infelizmente, eu não sei que fim levou esse livro", frisa.
Desses poemas perdidos, surge o primeiro trabalho, intitulado Chuva de Palavras. "Uma das primeiras pessoas a quem mostrei foi a Jaime. Ele ficou surpreso porque não sabia do meu gosto pela literatura. Até brincou, perguntando se eu estava plagiando alguém. Pra tirar a dúvida, mandou que eu mostrasse a duas pessoas que entendiam de literatura porque, se fosse boa, eles diriam, e se não prestasse, eles também diriam, era Dorian Jorge Freire e Franklin Jorge. Os dois fizeram boas críticas ao livro. As críticas negativas ao livro vieram de colunistas que nada entendem de literatura, dos quais Jaime sempre dizia: Críticas a gente só escuta se vier de pessoas que entendem do assunto", diz.
Eu sempre fui um apaixonado pelas artes gráficas
Este ano, além da novidade de uma edição de Das Máquinas, Gustavo revela que pretende terminar os preparativos para colocar em funcionamento o espaço cultural onde serão lançados livros publicados ou não pela editora. Segundo ele, será uma forma de comemorar os 25 anos da Queima-Bucha. Além disso, o editor lançará uma revista, que contará com a participação de nomes da literatura no Estado.
A editora começou depois que Gustavo publicou Chuva de Palavras (um dos seus primeiros trabalhos em poesia), em 1983. "Depois de publicar Chuva de Palavras, começaram a aparecer escritores e poetas interessados em publicar e comecei o trabalho de editor, mas sem ter uma editora registrada. Conheci, então, Gilvan Lopes, artista plástico e xilógrafo, natural da cidade de Assu. Juntos escrevemos um livro de poemas e xilogravura, e dei o título de Queima-Bucha, palavra que retirei do livro Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. Estava batizada a editora. O selo da editora hoje é uma xilogravura de Gilvan, talhada na imburana", explica.
Os primeiros títulos da Queima-Bucha foram de autores locais, entre eles Aluísio Barros (Anjo Torto), Leontino Filho (Sagrações ao Meio e Cidade Íntima) e Jaime Hipólito Dantas (De Autores e de Livros, tiragem de 200 exemplares, uma edição rara hoje).
Além da publicação do livro, Gustavo revela que sempre foi um apaixonado pela qualidade gráfica. "Eu sempre fui um apaixonado pelas artes gráficas. Sou do tempo da tipografia, dos tipos nas caixetas, dos clichês, das xilogravuras. Conheço a arte tipográfica desde sua fundação. E uma coisa que prezo muito é a qualidade dos livros, sua feitura e tudo que um bom livro deve ter. Comprei uma máquina de costurar livros que, como me informou Tarcísio Gurgel, foi a primeira do Rio Grande do Norte, por quê? Porque livro de qualidade é livro costurado. Muitos insistem em dizer que o livro colado, com cola quente, é a mesma coisa; mas quem entende de confecção de livros sabe que não é. O livro colado, com o tempo, solta as folhas. Já o costurado tem vida longa", comenta.
CORDEL, O FILÃO DO MOMENTO - Desde sua fundação, há 25 anos, a Queima-Bucha vive hoje um dos seus melhores momentos, com o aquecimento nas vendas dos chamados Cordéis.
Produto de fácil leitura e aceitação, o cordel tem sido um dos vencedores da editora mossoroense. Gustavo salienta que toda essa efervescência pela Literatura de Cordel partiu do nascimento de editoras como a dele em todo o País. "Creio que foi o nascimento de editoras espalhadas pelo Brasil e o despertar de professores, poetas, críticos e editores para o grande valor literário que tem o cordel, que resultou no que temos hoje. As pessoas estão acordando para a poesia muito bem escrita, que possui rima, métrica e musicalidade. Estão acordando e também percebendo que o cordel é uma grande ferramenta na educação de jovens e adultos. As crianças adoram cordel, os idosos também. Estamos criando novos leitores, o que é muito importante. Cordel que não é coisa de analfabeto. Visão ligada ao velho preconceito da elite brasileira", explica o editor.
Gustavo revela que atualmente a Queima-Bucha vende cordéis para todo o Brasil. "Além disso, estamos editando cordelistas importantes, como Arievaldo Viana e Rouxinol do Rinaré, do Ceará, além de Gonçalo Ferreira da Silva, presidente da ABLC e muitos outros".
O editor salienta que o ano de 2009 foi um ano importante para a editora, porque "a Queima-Bucha foi a única editora do RN a lançar um livro no Rio de Janeiro com a presença do presidente da Republica, Lula da Silva, com o evento se repetindo em Brasília".